Passadas 24 horas e muita conversa com os aliados para alinhar explicações convincentes, Flávio Bolsonaro entendeu que não tinha outra saída a não ser prestar esclarecimentos e conter o dano da exposição de sua relação com Daniel Vorcaro.
Em entrevista de 40 minutos à Globonews, o senador tentou normalizar o pedido de recursos ao ex-banqueiro e disse que não fez nada de errado, que agiu como um filho que quer realizar o “sonho” de produzir um filme sobre o pai.
Entre o nervosismo e as tentativas de apresentar moderação, deu explicações questionáveis, alegou que quando conheceu Vorcaro não havia suspeitas contra ele – o problema é que o áudio foi justamente da véspera da prisão do ex-banqueiro.
Flávio mencionou um contrato entre Vorcaro e um fundo, com cláusula de confidencialidade, mas não deixou explícito quem assinou o documento, o que é um ponto crucial para sua defesa. Se houver um contrato com a assinatura dele, a coisa pode se complicar. Também não sabia o destino dos recursos após a captação, apenas disse que os valores finais para a produção do filme foram muito menores.
Quando se viu encurralado pelas perguntas, Flávio foi ao ataque e jogou a culpa no PT: falou em perseguição da PF contra os opositores do governo e alegou que não aceitará uma narrativa que o coloque “no mesmo saco sujo” do adversário. Quando não se tem todos os argumentos, a melhor defesa é o ataque.
Nos 40 minutos de entrevista, Flávio se enrolou na resposta sobre o motivo de ter mentido quando foi questionado por jornalistas ontem. Ele só respondeu que, como o assunto veio à tona, “não tinha mais como negar”.
Traçando estratégia – A revelação de áudios de troca de mensagens entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro deixaram o pré-candidato do PL mudo durante todo o dia.
Ao optar, num primeiro momento, por divulgar uma nota à imprensa, ao invés de aparecer com a cara ao público e dar uma entrevista, com direito a perguntas e respostas, Flávio demonstrou que ainda não estava seguro sobre a melhor forma de contestar as revelações. Até divulgou um vídeo aos apoiadores, afinal estava em ambiente controlado e precisava passar “tranquilidade” aos eleitores.
Longe de questões criminais, o problema é político, e é grande. Defender a criação de uma CPMI do Master embute uma jogada – o pedido de CPMI foi apresentado por Carlos Jordy (PL-RJ) e, para que seja instalada, depende de sessão do Congresso, que Davi Alcolumbre, também enrolado na trama, não tem disposição de convocar.
Aliado de primeira hora do ministro Kassio Nunes Marques, Flávio podia fazer uma gestão para que ele mande instalar a CPMI. Mas, do outro lado, tem Ciro Nogueira, outro amigo de Kassio, que não quer nem ouvir falar em CPI nem CPMI.
Por enquanto, Flávio e seu entorno vão bater na tecla de que o pedido de dinheiro foi para uma obra cinematográfica para lembrar da gestão de Jair Bolsonaro. Mas o áudio, claro, deve afastar o eleitor independente – talvez não os bolsonaristas mais convictos, mas a eleição será definida pelos nem-nem.
Choque de versões – Flávio viveu ontem um dia longo. A prisão do pai de Daniel Vorcaro nesta quinta-feira junta-se ao pesadelo que o pré-candidato começou a vivenciar anteontem, com a divulgação de áudios entre ele e o ex-banqueiro.
A nota que ele emitiu admitindo que conversou com Vorcaro em busca de financiamento do filme sobre seu pai, choca-se com declarações de Mario Frias, e da própria produtora, de que o filme não foi pago por Vorcaro. Há explicações técnicas que podem esclarecer essas incongruências, mas o problema é esse – explicações técnicas, que o povo, em geral, não entende, e que o PT já está explorando de uma forma simples: para onde foram os R$ 62 milhões?.
O nome de Michelle começou a circular entre bolsonaristas e governistas, mas Flávio afirmou à CNN que seu pai vetou o nome da esposa. O BAF já havia informado que a ex-primeira-dama estava descartada de pronto. Paralelamente a isso, e para infortúnio de Flávio, a madrasta não se pronunciou a favor do enteado.
Há muitas questões a serem esclarecidas e a prática política aponta que a população acredita mais em denúncias do que em respostas – mesmo que verdadeiras.
A eleição deve ser vencida por aquele que tiver menos rejeição – Flávio e Lula estão praticamente empatados nesse quesito. E os novos episódios envolvendo o 01 devem aumentar a descrença nele.
Equipe BAF – Direto de Brasília
Foto: Mateus Bonomi, AGIF


